Um estudo de caso de superação, segundo o RH da SABESP

Depois de algumas escolas e alguns empregos, fui trabalhar na mesma agência de propaganda que meu marido trabalhava até o dia que a proprietária me negou o aumento que eu precisava para conseguir manter a escola da criança. Neste dia saí para fazer serviço de banco e voltei de emprego novo. Na verdade era só um teste marcado para segunda feira (era sexta), mas eu já estava me sentindo de problema resolvido.

 

Tudo bem que eu mal sabia ligar um PC mais moderninho que o CP500 lá de casa, que a vaga era para alguém com mais idade e, no mínimo, 5 anos de experiência na função, muito menos que no teste de segunda eu precisava dominar FlowCharting, Word, Excel, PowerPoint e sei lá mais o quê.

Meu marido (atualmente meu ex) rolou de rir. Como eu ia saber aquilo tudo até segunda? Minha via sacra começou ali. Sem ter noção do quão bizarro era o desafio, apenas fui em frente.

Liguei para um monte de anúncios de professor particular de computação, nenhum disse sim. Rodei todas as escolas de informática de Santo Amaro, a maioria nem sabia que existia um programa chamado PowerPoint.

Foi no sábado depois de brigar com o marido pelo pouco apoio que ele estava me dando que ele ligou para o professor dele e repassou a dica “compre o livro Word passo a passo e treine com ele”. Meu marido passou as dicas básicas, ficou em casa com a criança e lá fui eu sozinha pra agência de propaganda onde trabalhávamos para treinar no PC. Fui até que bem longe, considerando que o livro era em português e o programa em inglês (ou vice e versa).

 

Na segunda feira lá fui eu para o teste na Coopers & Lybrand. O estagiário Bonás foi quem me aplicou o teste. Me entregou uma máquina ligada com um programa que nunca vi na vida e disse: basta copiar este documento. Quando terminar me chama que eu mando imprimir.

 

Eu olhei aquela coisa na tela azul e pensei, Word isso não é. O que eu faço agora? Fui apertando botão e mesmo reparando que boa parte do eu tinha que fazer já estava pré configurado na máquina, o mínimo que faltava eu não sabia. Eu suava de um jeito que nunca suei na vida. Depois de um longo tempo ele voltou, olhou na tela e disse: pode parar, vou imprimir, seu teste acabou.

Fui até o RH, onde a garota estava mais ansiosa que eu pra saber o resultado. Fui honesta com ela, disse: fiquei tão nervosa que mal consegui andar dois passos. Com certeza fui muito mal. Me despedi e bora perguntar pro marido que porcaria era aquela lá, tão diferente do que eu tinha estudado. Pela descrição ele chegou à conclusão que era algum programa rodando em ambiente DOS, detalhe, eu estudei Word for Windows.

 

Sabendo que não tinha chances ali, corri para outras vagas e entrevistas. Numa delas a garota gostou tanto do meu perfil que disse: você foi feita para esta vaga, só não te contrato agora porque preciso apresentar o relatório de X entrevistados.

 

Sai dali me sentindo outra. Feita para a vaga? Não é qualquer um que ouve isso nem numa vida inteira de trabalho. Mal pisei na calçada e recebo a ligação do RH da Coopers dizendo: resolvemos te dar mais uma chance, pode vir fazer o teste agora? Claro eu respondi. E lá fui eu toda tranquila, meu emprego já estava garantido na empresa que tinha acabado de ser entrevistada, aquele teste na Coopers era só mais uma experiência de vida. Ocorre que, tranquila porque não precisava da vaga, esperta do primeiro teste e tendo recebido depois dele um documento para fazer no Word, eu fui muito melhor no resultado. O mesmo Bonás que me aplicou este segundo teste e comentou: puxa, você estudou bastante, seu teste foi muito melhor agora. Mais uma vez eu fui honesta com ele e disse: eu não estudei de novo, apenas estou bem mais calma hoje que da primeira vez.

 

Fui contratada para trabalhar ali, numa empresa super formal, eu vestida de macacão preto, boca de sino, blusa florida e cheia de babados, no mais fiel estilo publicitária. Sem a idade nem muito menos a experiência exigida para a vaga.

 

Foi após os primeiros dias de produção quase zero que os estagiários entenderam de uma vez por todas que eu sabia nada versos coisa nenhuma. Só decidiram me ensinar porque não aguentavam mais fazer aquele trabalho. Logo comecei a estudar sozinha o tal PowerPoint que, de fato, me parecia o mais apropriado para os trabalhos produzidos ali: blocos de textos, imagens e gráficos para os workshops realizados nos clientes da consultoria. Também não demorou muito para eu estar de mesa em mesa ensinando as pessoas todas enlouquecidas porque eles trocaram o pacote office da Microsoft pelo pacote da Lotus. Amipró, Freelancer, Aproach… Até um diretor com medo de mouse fez aulas comigo.

 

Quando foram redesenhar o escritório e eu montei uma planta baixa em Excel, um gerente comentou: você não está fora da sua área de atuação não?

Depois de ter sido confundida com um orangotango, já no primeiro dia de trabalho, porque o gerente deu uma ordem que estava errada, eu questionei e ele berrou na frente de todo Staf que não era possível eu ser tão burra… depois me pagou um almoço no melhor restaurante por perto só para se desculpar e explicar que eu era um leão contratado para vaga de orangotango… nada mais me surpreendia.

Aliás quem não parava de surpreender a todos era eu. Até a diretora superintendente me chamou na sala dela só para responder pessoalmente o documento que eu havia criado e deixado na mesa dela no dia anterior (o documento questionava porque aquela empresa seguia a linha do “Casa de ferreiro, espeto de pau”).

Foi um choque no meu departamento quando alguém atendeu o tel e era ela querendo falar comigo.

Entre tantas coisas que ela me disse a que jamais esqueci foi: Se você quer ter um futuro no meio empresarial precisa mudar de postura. Você diz a coisa certa, pra pessoa errada, na hora errada. Ela estava coberta de razão. Eu acabei demitida pelo gerente que mais recebia bronca minha, a portas fechadas, mas debatíamos longos minutos sobre todos os problemas do departamento.

Meu consolo foi ter a satisfação de viver a experiência de mudar os padrões daquela multinacional antes de sair. Por um golpe de sorte, certo dia/noite eu era a única funcionária na empresa, depois do expediente, que poderia produzir um material de última hora solicitado pela diretora. Sozinha e com aquela responsabilidade toda o jeito era produzir em PowerPoint, e lá fui eu. Não deu tempo de eu sair e lá veio a diretora pessoalmente até o meu departamento. Eu gelei. Ela queria saber quem fez aquilo e qual programa tinha usado. Eu, fiz em PowerPoint. Ficou divino ela disse. A partir de hoje todos os materiais deverão ser produzidos apenas neste programa. Muita gente ficou brava comigo depois deste dia.

 

Claro que eu rolei de rir quando meu primo Wagner contou que numa palestra do RH da SABESP a palestrante contou a minha história. Ele foi até ela conversar sobre isso, não é possível existirem duas pessoas que passaram por isso. Foi conversando com ela que ele descobriu, ela era esposa do irmão do meu marido. Ele se apresentou, sou o primo dela kkkkk.

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