Senho do Bonfim – BA

Chegamos em Bonfim durante a madrugada, mais mala que gente. Pedimos informação e nos hospedamos a menos de 100 mts. De manhã as crianças ficaram extasiadas com o café da manhã do hotel e decidiram que poderíamos morar ali pra sempre.

primeiro hotel em Bonfim

Fui correndo entregar os documentos na faculdade e no caminho consegui indicação da primeira casa que alugamos lá.

 

Não tinha emprego em lugar nenhum. Montei até um currículo simplório para conseguir alguma vaga, mas me denunciei nas entrevistas. Um dos recrutadores chegou a olhar atrás da folha do currículo e perguntar: cadê o resto do seu currículo? Tá na cara que você não fez só isso que está escrito aqui. E não me deu a vaga.

 

Consegui um estágio na rede local de ensino, por conta da licenciatura, mas foi a experiência mais triste que já vivi. Num local tão distante de qualquer pessoa conhecida, responsável por uma família de 2 adultos e 3 crianças, eu fui “Devolvida” como eles dizem lá. Digo que foi uma tentativa de assassinato emocional. Eu só sobrevivi porque meu marido deu o apoio que eu precisava e porque meu passado já tinha mostrado meu valor. Do contrário mal consigo imaginar o que poderia ter acontecido. Hoje sei o desespero que sente um pai de família sem o pão e o leite para seus filhos.

A única pessoa que parecia falar a minha língua naquele lugar era o prefeito. Foi ele quem comprou um blog e me deu todo o apoio, não só durante todo tempo que moramos lá, mas inclusive e principalmente foi quem nos ajudou a sair de lá.

 

Meu atual marido, Braz, pai de nossas 3 pequeninas, se ajeitou colocando uma “mesa” na garagem pra vender balas. Depois outros doces, então compramos uma  “vitrine” e logo tinha pão fresco, pão doce… Ficou com cara de venda quando compramos uma prateleira de segunda mão para guardar os mantimentos e decidimos colocá-la logo na garagem também, assim, quem sabe vendia algo com lucro.

 

Depois de algum tempo batendo cabeça para manter as anotações de preços, estoque, entradas e saídas, pinduras, nos sentimos confiantes para alugar o bar da esquina, que vivia fechado. O Braz ficou até guloso e achou que daria conta de acordar as 4 pra comprar o pão, atender a casa, as crianças, a garagem, o bar e seus bêbados até as 3 da manhã. Enquanto eu trabalhava de professora durante o dia, estudava na faculdade a noite.

 

Impossível falar sobre a federal de senhor do Bonfim sem lembrar de meu pai adotivo. O nome dele é Moisés. No dia de abertura oficial do curso eu fui a cerimônia de moto táxi, muito comum por lá. Mas ele avisou logo que depois das tantas não voltaria ali, naquele escurão pra me buscar. Num dos intervalos eu saí para fumar e vi um rapaz com capacete. Cheguei perto e perguntei: onde vc mora? Nem sei o que ele respondeu e eu fui logo explicando. É que moro perto da rodoviária e o moto táxi que me trouxe disse que depois das tantas não vem me pegar. O rapaz respondeu rápido, eu te levo, fique tranquila.

 

Poderia ser um louco, assassino ou pior, quem saberia? Pois foi ele quem me adotou e me levou e trouxe de casa até a faculdade durante o tempo inteiro que estudei lá. Nos tornamos amigos, fizemos até concurso juntos.

 

Quando, depois de lutar com todas as minhas forças para manter o curso com o nome original, mas eles mudaram o nome para licenciatura em Ciência da Computação, eu entendi que não fazia sentido continuar ali passando fome para fazer um curso que tinha na esquina da minha casa em Capão.

 

Foi então que decidimos voltar. Mas se não tínhamos condição financeira nem para sobreviver lá, como sair de lá? Começamos a jornada pesquisando quanto custava voltar para casa e quais seriam os outros destinos possíveis. A internet nos dizia que em Ipojuca – PE, o porto de Suape estava contratando gente do Brasil inteiro e a cidade estava em franco crescimento.

 

Pareceu o melhor destino, fizemos as contas e começamos a vender nossas coisas. O empurrão mais importante foi dado pelo então prefeito da cidade. Paulo Machado foi um anjo em nossas vidas. Me orgulho da entrevista que realizamos com ele, durante um trabalho da faculdade.

 

VLUU L200 / Samsung L200

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